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terça-feira, 10 de junho de 2014

Ficar ou fugir?

Eles vivem presos há anos. De modo que quando perceberam o cadeado aberto, sentiram que enfim seriam afagados pelo sopro da liberdade.

John e Lili desceram a rua a todo o vapor, sem olhar para trás. Com uma espécie de sorriso maravilhado, trotavam como cavalos de corrida.

Já Ritinha saiu dizendo: “Venha, oh, liberdade, eu não tenho medo”, mas logo aniquilou-se. Todos aqueles carros, pessoas, bocas, barulhos, vida acontecendo, lhe lançou um medo paralisador. Ficou, vejam só vocês, na rua encolhida como um recém-nascido.

Desfrutado os medos e diversões – os dois primeiros foram pegos na padaria, prestes a comer um frango assado. Já Ritinha foi resgatada há poucos metros de casa, ainda encolhida.


Até mesmo os cães, cada um tem o seu modo particular de lidar com as situações que a vida coloca... 


Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de fotografia, cachorro, botequins e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas.

domingo, 6 de outubro de 2013

“Região sem favela” é o slogan de construtora em Fortaleza

Flyer distribuído nas avenidas de Fortaleza.  
Passaré nunca foi considerado um bairro “nobre” na capital do Ceará, mas depois da reforma do Estádio Castelão para a Copa de 2014, empresas de diversos segmentos passaram a investir na região.

Uma delas é a Jatahy Engenharia, responsável pela construção do edifício “Recanto dos Sabiás”. 
Pensando em atrair compradores para os apartamentos, a construtora garante: “Para quem busca o perfeito equilíbrio entre beleza e tranquilidade. Uma região sem favela”.

Zero farofa, feiura e panelaço, com uma vizinhança "classe única". 

Se querem fazer crer que o êxito da segurança e tranquilidade dependem de anos luz de distância das favelas, o mesmo não podem afirmar sobre o edifício estar à “salvo” delas. As quebradas.

Ano passado estive em Fortaleza. Passeando pelos arredores do Castelão vi várias casas simples, de tijolo baiano, sem reboco, janelas de alumínio... Casas pobres. Em ruas pobres.

Havia em algumas dessas casas faixas que diziam: “O único legado que quero que a copa deixe é a minha casa”.

Mesmo com o aclamado “boom” imobiliário, a favela existe, está lá, e muito antes da chegada dos edifícios-paraíso-na-terra.

Se postos em prática é outra história, mas não deixam de ser bonitos e comprometidos os valores da construtora, vejam só:

“Primar pela ética, respeito e transparência, tornado acima de tudo, uma vida mais justa, fraterna e de iguais condições para todos.” (sic)


Para todos. Mas, por favor, sem favelas. 


Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de fotografia, cachorro, botecos e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pedras e urubus, os dias que te matei

Urubu do amor...
Andei pelas ruas achincalhando seu nome.

Contei seus segredos, como quem conversa na feira. Beijei bocas fétidas de palavras podres. Mas seus beiços-cigarro-café, jamais.

Contei a todos os seus defeitos. Sem efeitos, inventava mais alguns.

Joguei em suas costas o peso das pedras e urubus que o vento colocava em meu caminho. O mesmo vento que soprava a nosso favor.

Maldisse seus gostos e costumes. Seu jeito roceiro de viver na cidade, a simplicidade do vestir e falar. Amaldiçoei as cervejas divididas, os risos, as contas que não paguei, as histórias repetidas.

Os malditos garçons da praça Roosevelt sabiam de nós. Sabiam e nada disseram. Não me contaram do cliente de longa data. Dos olhos lascivos, das bundas passantes e penetradas.

Seus tiques de retardado. Insensibilidade, a falta de flor. Um homem que chora. Mas sem sangue e coração. O gozo crescido, o suspiro de menino.

Em comum acordo, jurei a deus e ao diabo, não mais te ver, nem deixar entrar seja por qual porta fosse.

De armadura e trabuco, cheguei. Espremi a campainha que nunca funcionou. Nada de mais, meus livros que esqueci. Já li, mas foram caros.

Sorriso sem dente. Olá e tudo bem, como manda o figurino.

Calor. Geladeira cheia. Educação. Cerveja de intenções. Sofá pequeno. Umas palavras soltas, um olhar preciso.

Um dia.

Dois dias.

Três dias.

Domingo. Pernas xadrez bordam o lençol. Conchas de gente dentro. Abraço e leite com canela.

Não se vive o que se fala. Floresce o que se sente.



Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de jabuticaba, cachorro, botecos e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O dia em que conheci o guardião da CPTM


(Foto: Ricardo Guimarães - Diário da CPTM)
Era por volta de 23h. Estava aproveitando os últimos goles de cerveja à espera do trem, que, como de costume, tardou a chegar. De repente, surgiu um homenzinho de baixa estatura, levemente pançudo com cara de poucos amigos.
– A senhora não pode beber dentro da estação.

– Ah, o senhor me desculpe, eu não sabia. Estou terminando e já jogo a lata fora.

Ele cruzou os braços diante de mim e ergueu o queixo, como que chamando para um duelo. Adiante, vi seus colegas na ponta da plataforma. Olhavam o rio entediados, meio sonolentos, aguardando o fim do expediente, mas não o homenzinho, esse queria mostrar serviço.
– A senhora vai jogar a lata fora agora! – Disse, aumentando o tom.

O homenzinho cresceu dentro de sua farda azul e pintou as bochechas de vermelho.

– Não vou jogar fora, comprei e vou beber. – respondi.
Ele se aproximou e tentou levar a lata na mão grande, dei um olé no ar e ele apertou o vazio.

– Olha, eu não deveria ter entrado com a lata, mas já que entrei, me diga, a quem eu prejudico terminando de tomar esses dois goles de cerveja quente?

– Não pode! Joga a lata no lixo agora! – Disse indignado.
Mesmo falando alto e quase mostrando os dentes, seus colegas não nos deram nenhuma atenção, em meio aos bocejos, continuaram com os olhos do rio.

– No regulamento da CPTM está escrito que é proibido consumir bebida alcoólica nas estações!

– O senhor vai me desculpar, mas apenas passo a catraca e entro no vagão, não leio nenhum manual do trem.

– Ou joga a lata fora, ou...
Finalmente o trem chegou, pensei. Larguei o homenzinho e suas ameaças. Sentei-me num dos bancos, e antes de sorver o último gole ergui a lata e fiz um brinde em sua homenagem.

– Adeus guardião da CPTM!


Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de jabuticaba, cachorro, botecos e maus modos.
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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Com prédios e shoppings, quem precisa de memória


O terreno, localizado na Av. Elis Maas, fica próximo 
ao metrô do bairro. (foto: QP)
Daqui a algum tempo, fotos como essa serão apenas uma lembrança, uma casa a ser visitada apenas no papel ou na tela do computador.
Este terreno da foto, está localizado no bairro de Capão Redondo, possui, pelo menos, quatro casas, que foi o que deu para ver do lado de fora do portão.

O terreno é grande e repleto de árvores e plantas, o que destoa o visual da via, composta por uma linha do metrô, poucas casas, comércios e casinhas que viraram pequenos comércios. As casas do terreno são antigas e ainda conseguem guardar um quê de bucolismo, possuem umas janelinhas, daquelas que as pessoas apoiam os cotovelos só para olhar a vida.

Mas há uns três meses, ou mais, vi que colocaram uma placa no terreno com os seguintes dizeres: “Em breve centro comercial”.

Esse tipo de placa não é exclusividade deste bairro. Com frequência vemos casas e prédios antigos virarem meros esqueletos de concreto e ferros retorcidos, para depois dar lugar a algum empreendimento.
Vale lembrar que casas são o de “menos”. Há pouco tempo vimos o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, animadíssimo em destruir o Museu do Índio, ao lado do Maracanã, para construção de um estacionamento. Graças aos protestos, o museu ainda está de pé.

Acontece que, afagadas pelo governo, empresas que visam o “progresso e desenvolvimento” têm cometido inúmeros abusos, com a justificativa de nos "presentear" cada vez mais com lojas, restaurantes, hotéis.


Mas, não sei... Estou achando esses presentes de grego. É bonita e necessária a vida que acontece nas praças, bibliotecas, centros culturais, nas casas antigas... Parece bom que a história de nossos bairros, cidades, que a nossa história, seja contada por ela mesma, por ser o que se é, ou seja, existindo.

Andando pelo centro esses dias me pus a pensar, que não me espantaria se visse em algum jornal que demoliram o Theatro Municipal, em São Paulo, para construção de um shopping para cachorros...


Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de jabuticaba, cachorro, botecos e maus modos.
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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Por que nos incomoda tanto quem fala “pobrema”?


Marcos Bagno é doutor pela USP e
 tem mais de trinta títulos lançados.
(Foto: Rascunho - Gazeta do Povo)
Marcos Bagno no livro “Preconceito Linguístico – O que é, como se faz”, nos traz uma reflexão sobre como enxergamos a nossa língua e como nos relacionamos com ela. Sobretudo, nos dá uma dimensão da importância de uma educação linguística voltada à inclusão social e a valorização da diversidade cultural entranhada em tantos portugueses falados pelo Brasil afora.
Logo de início, na introdução do livro, ele nos adverte:

“Temos de fazer uma grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam.”
Assim que li isso me lembrei de uma amiga que mora em Parelheiros, bairro do extremo sul de São Paulo, que me disse uma coisa que também vejo onde vivo, no Capão Redondo (extremo sul também), “Onde moro nunca ouvi uma pessoa falar: “os policiais”, só “os polícia””.   

Eu também nunca vi, e acredito que não seja mera coincidência. Grosso modo, é uma adaptação “malandra” da língua de um povo, de determinada região, que, por motivos muitos, não vê os homens da segurança pública com todo esse garbo e elegância, como sendo merecedores do plural: “Vejam lá, colegas e vizinhos, Os Policiais estão chegando”. É mais comum, “Os polícia tão chegano, mano”, quando dá tempo de dizer isso tudo...

Estamos falando de regiões urbanas, mas nas cidades do interior dos estados, o mesmo fenômeno acontece, com número igual ou maior de variações linguísticas.

Vale lembrar que este modo de falar não se restringe apenas às classes mais baixas. Não foram poucas as vezes que vi pessoas com poder aquisitivo e ensino superior dizerem: “Nóis vamo de qualquer jeito”.
Dessa reflexão, pergunto: O que aprendemos primeiro, a falar ou a escrever?
Para o autor, diferente da história do ovo e da galinha, esse dilema é mais fácil de resolver: “Todo esse processo histórico de inversão dos fatos pode criar a ilusão de que primeiro alguém escreveu uma gramática e só depois é que as pessoas passaram a falar a língua”.


Por defender a legitimidade das variações linguísticas, foi criticado, muitas dessas críticas se fundamentavam no argumento: “Se todo mundo fala como quer, então vamos escrever de qualquer jeito. Pra quê gramática?”.
Sobre isso, Bagno aproveita o gancho e explica a importância da divisão clara dos papéis da língua falada e escrita na sociedade e no cotidiano.
“É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortográfica oficial, mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada “artificial” e reprovando como “erradas” as pronúncias que são resultado da história social e cultural das pessoas que falam a língua em cada canto do Brasil”.
Em suma, só posso chegar à conclusão que falar pobrema não é um problema se você compreende o significado. Como diz e reitera o linguista, “É infinitamente mais útil e relevante aprender a usar a língua e não aprender sobre a língua”.
Se quiser se aprofundar no assunto, neste link você pode baixar o livro em PDF.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Não ouço quem só aprendeu a falar


Nada que esteja aí para todo mundo me interessa. Dessas coisas todas que possuem as pessoas, nada me interessa. Carros, empregos visados, roupinhas e outros adendos, nada disso me interessa. Eu bato asas e saio voando. Receitas de como agir, de como se portar, a quem se dirigir, como falar. Nada disso me aquece.

Não me interessa nenhum lugar, nenhuma ordem, qualquer organização que queira instituir em mim uma verdade que não autorizei, mas que fui condicionada, sem que me dissessem que havia outra porta. Não aceito que vozes que nunca gritaram, me imponham o que devo acreditar. Estou nessa ciranda para trocar, não acredito em que só aprendeu a falar.

Não é fácil, reluto, mas vou lá; Amarro minha moral numa cadeira, taco fogo nos bons costumes, trancafio no porão meus preconceitos e vou à vida. Beber gente. Gente lapidada como pena de pavão, gente crua que sangra, gente que não é gente, gente que vive para os outros, gente que vive para si, gente que não sabe pra que vive.

Estamos sujeitos à tudo. Na vida estamos aí para todo tipo de violência. Na rua é um tiro que nos encontra, na calçada é um tijolo que cai e abre nossa cabeça. Um enfarte, o coração dorme, e você não mais acorda. E ainda com essas possibilidades esfregadas à luz do dia em nossas caras, enrijecemos os músculos, secamos a saliva, babamos, cuspimos, mostramos os dentes, sem escutar ninguém, nem um pardalzinho.

É como se deus, num dia ruim, tivesse dado um milagre pela metade, um rebanho de surdos que só aprendeu a falar.



Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de jabuticaba, cachorro, botecos e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas.