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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Por que os homens não gostam de levar cantada na rua?


Dia desses estava a caminhar com um amigo na Linha Amarela do Metrô, até que fomos interpelados por dois olhos grandes e lascivos. Eram de uma bichinha, muito da simpática e abusada. Nos cumprimentou e foi andando devagar, sempre com os olhos fixos no meu amigo.

Bufando, logo veio a indignação:

- Eu não tenho preconceito, mas, porra, precisa olhar desse jeito! – Bradou, possesso.

E assim seguiu durante boa parte do caminho, discursando sobre gays que cobiçam à luz do dia.

Fazendo um traçado, fiquei pensando... A mulher desde que nasce já está condicionada a passar por essas situações. Quando estava lá com os meus onze anos, peitinhos crescendo, minha mãe já tratava de me cobrir para não “chamar a atenção”. Era o jeito dela de me proteger.

Se a situação não está fácil para eles, agora vá para o outro lado do rio, se imagine com peitos e silhueta. A coisa certamente piora.

Recentemente, uma pesquisa feita com 7.762 mulheres apontou que 99,6% das entrevistadas já foram assediadas sexualmente; 90% das mulheres disseram ter trocado de roupa pensando no lugar onde iriam por receio de assédio; 82% foram agarradas na balada e 68% declararam que foram xingadas após a recusa de uma cantada. As informações são do site OLGA, jornalismo independente e feminismo.

E se o assédio dos homens para com as mulheres se restringisse aos olhares, vá lá, e quando acontecem aquelas frases infames ou quando, uns mais boçais, te mostram aquilo que você não pediu para ver. É de dar pena. Que derrota da humanidade esses machos rasos.

Em linhas gerais, meu amigo se incomodou com os olhares do rapaz, não porque seja homofóbico, mas porque se sentiu acuado. Como as mulheres se sentem toda vez que são chamadas de ‘puta’ na rua e sequer agradecem ao homem que se dispôs a comê-las. Quanta ingratidão.


Fiquem com a tirinha da Thais Gualberto, do blog kisuki: 




Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de fotografia, cachorro, botecos e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Negahamburguer além da capa

Criadora e criatura. 
Num sábado de sol e preocupações, entrei no ônibus. Sem crédito no bilhete, recorri as nicas escondidas no fundo da bolsa e segui viagem estralando os dedos. O TCC comia o meu juízo e o que restara de mim, ia encontrar alguém que pudesse me dar uma luz e até mentir, dizer que tudo ia ficar bem.

Fiz um livro reportagem: “Kantuta: Memórias da flor”, sobre a Feira Kantuta, principal reduto da colônia boliviana em São Paulo, e precisava de alguém para diagramação. Depois da indicação de um amigo, resolvi que Evelyn Queiroz faria o serviço. Ouvi boas críticas sobre ela e fui ao encontro com fagulhas de esperança.

Marcamos numa padaria no Capão Redondo, de cara houve sintonia. Com duas cervejas resolvemos o livro e começamos a desenrolar umas ideias. Falamos de nossos trabalhos e do desejo em largá-los. Das viagens que faríamos e dos sonhos que tínhamos. Falamos do sexo na vida das mulheres e, também, dos homens que dizem manjar de sinos, mas que não tocam nada.

Papo vai, papo vem, Evelyn comentou da Negahamburguer, sua cria que, aquela época, ainda engatinhava. Depois de um tempo, com a viralização de seu trabalho nas redes, vi que se tratava de algo maior. Um personagem real, uma mulher com corações de mulheres. Gordas, magrelas, mães, negras, com pelos, pneus, bundas diversas e peitos caídos. Mulheres vivas.

Com o mantra “Aceite seu corpo”, de longe, vi Evelyn crescer, e a Negahamburguer tomar corpo. Corpos de pessoas vitimadas pelo câncer e pela sociedade tomam o coração da artista e pulam para as telas. Evelyn come a dor do outro e devolve afeto. 

Mistura fina de amor e arte.

E a delicadeza também está presente à parte das tintas e pincéis; na paixão pelos cachorros, na costura de seus vestidos, no pai que leva no braço e no gosto por livros... Aliás, ficou com um meu “O livro amarelo do terminal”, que nunca devolveu. Mas, em mim, quantas coisas deixa com seus desenhos... Tudo bem, pode ficar.

Depois de idas e vindas, problemas seculares com a gráfica, e enfim findado o livro, disse que encheria uma laje, mas que JAMAIS faria capa nem contracapa de TCC para seu ninguém.

Ela tem razão. Quem precisa de capa quando há conteúdo? 










Para mais informações, acesse a página da Negahamburguer no Facebook. 


Angelina Miranda é jornalista e escritora sem livros.
Ri alto, é fã de fotografia, cachorro, botecos e maus modos.
Dá uns pitacos pelo Feici e faz uns versos no Poesias Angelinas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Quanto cabe numa palavra?

Nascido em Paris, Sponville tem grande influência  
de nomes como Sartre e Dostoievski.
Nos sonhos e pesadelos, no café da manhã, trabalho e jantar, até quando a língua cansa, estamos dizendo alguma coisa. Gastamos de 10 a 11 horas por dia nos comunicando verbalmente, seja falando, lendo ou escrevendo (em tempos de Facebook, esse número pode ser maior). Mas mesmo com tanta ‘prática’, nem sempre fazemos o melhor uso da língua, digo tanto no sentido de utilizar uma palavra empregando outro significado, como também, por mergulharmos tão pouco no oceano de possibilidades que pode conter a palavra.

‘Adulto’, por exemplo, na maioria das vezes, é utilizado apenas para distinguir os pequenos dos grandes, uma ponte que divide o aparente abismo que há entre o que é ser criança e adulto, mas parece que o rio não é tão raso assim.

“Adulto: Aquele cujo corpo deixou de crescer – que já não pode crescer, a não ser por meio da alma. É ser fiel à infância, recusando-se a encerrar-se nela. Porque todas as crianças querem crescer. O infantilismo é uma doença de velhos”.

André Comte-Sponville no seu “Dicionário Filosófico”, vai muito além das definições frias e objetivas a que estamos acostumados a ler nos Aurélios por aí. De maneira meticulosa, ele pensa a língua, investiga a palavra, revelando origem e essência, tantas vezes esquecidas nas curvas do tempo...

Letras adiante, ele nos diz sobre a ansiedade; com a espetacularização da violência e o medo injetado nas grandes cidades, e até nas pequenas, ela tem funcionado como um regulador social, que restringe as possibilidades de estar efetivamente na vida e vivê-la. Se enfurne, ponha mais trancas, tome o café em casa, a violência está na rua, a morte na calçada.
“O ansioso sempre está um medo à frente: ele verifica três vezes se fechou a porta, teme ser seguido ou agredido, teme sempre – tanto para si como para seus próximos – a doença, os acidentes, o infortúnio. Toma, contra o seu medo, um arsenal de precauções, que só fazem aumentar o medo. Tem medo de sentir medo e se apavora com isso”.

Ainda que a solidão seja uma condição comum a todos nós, há a tendência de confundi-la com o isolamento, e reduzi-la a um sentido meramente soturno e negativo. Ai daquele que opta por ficar em casa numa sexta-feira à noite, logo é digno de pena, está só, não tem ninguém.
“A solidão é nossa condição ordinária: não por termos relações com os outros, mas porque essas relações não poderiam abolir nossa solidão essencial, que decorre do fato de sermos os únicos a ser o que somos e a viver o que vivemos. “Na medida em que somos sós, o amor e a morte se aproximam”, escreve Rilke. Não é que não haja amor, ou que sejamos os únicos a morrer; mas é que ninguém pode morrer ou amar em nosso lugar. Assim, o isolamento é a exceção; a solidão, a regra. É o preço a pagar por ser si mesmo.”

Um dia uma menina de uns cinco anos me perguntou: O que é ser Mulher? Pensei, pensei mas de nada adiantou, às vezes, o que parece ser o mais simples e óbvio é o mais difícil de explicar.
“Dirão que o que importa é a humanidade, não o sexo. Pode ser. Mas tampouco é anedótico o fato de a humanidade ser sexuada. A diferença sexual é, sem dúvida, uma das mais fortes, das mais constantes, das mais estruturantes que há. No entanto, a diferença entre os dois sexos permanece vaga e deve tanto ou mais à cultura, ao que tudo indica, do que à natureza. “Não nascemos mulher”, dizia Simone de Beauvoir, “tornamo-nos mulher.”

Sobre as diversas formas de acontecer mulher, ele conclui: “Uma pessoa nasce mulher ou homem, depois se torna o que é, de maneira mais ou menos feminina ou masculina, mas pouco importa esse devir, ainda que deva tudo à cultura, é um dos mais bonitos presentes que a humanidade deu a si mesma.”.